Enquanto escorrem as meias

 Quem lava roupas à meia-noite? Certamente alguém que não teve tempo de lavar durante o dia e que não terá tempo para lavar amanhã e que tem medo da roupa não secar, porquanto precisará de algumas peças limpas para viajar em 36h. Entendo essas pessoas. Entendo também aquelas que por algum motivo pausam a lavagem porque algo importante veio a sua mente, algo que não se quer perder.


Apesar de sempre ouvirmos que lavar pratos é uma terapia e tanto, não imagino que lavar roupa possa ser diferente. Meu amigo Luís mergulha no tanque para afogar suas mágoas e esvaziar a mente. Então, da mesma forma que essas tarefas corriqueiras são terapêuticas, também podem ser inspiradoras. De repente, você joga um par de meias no varão que ultrapassa sua cabeça e dá de cara com um céu repleto de estrelas adoráveis. E quando isso acontece, o melhor é colocar o amaciante e deixar que as roupas descansem uns minutinhos a mais.

Tive uma amiga que adorava observar as estrelas. À noite, colocávamos nossas cadeiras numa área espaçosa que havia em cima do terraço da minha casa e ficávamos horas conversando e olhando para o céu. Não importava quantas vezes fizéssemos isso, ela sempre fazia questão de comentar em tom de lamento que naquele céu quase não havia estrelas. É claro, não está em jogo o valor astronômico da frase e, sim, a triste incapacidade dos olhos humanos em penetrar além da vasta camada de poluição como também de driblar todas as luzes.

Ainda era cedo da noite quando eu e ela cumpríamos esse quase ritual - logo após o jantar. Foram momentos especiais. Hoje não sei qual céu ela olha, se de uma pequena cidade ou uma metrópole. A vida às vezes afasta as pessoas; nem sei mais se lhe encantam as estrelas. Mas lavar as roupas a essa hora me proporcionou reconhecer algo: se ela tivesse aqui, teríamos alcançado mais estrelas.


Feita em 2016

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